quarta-feira, 14 de março de 2007

A Excomunhão

Sabendo-se na alegria de terscido:
como se soubesse o seco vinho,
a Excomunhão perambulatória assombra
penumbrosa, estúpida, teimosa
as memórias gratas e difíceis.

Te-ser como quem tece:
fábrica desenfreada de cordas
como pontes entrelaço incertintensas
como forcas simples-sugas sangue dentro.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Attraverso

Por vezes, me guardo como quem se treme:
um barco de velas como folhas murchas
à deriva no revolto mar de dentro
(sem leme).

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Minicontos III

Fuga, um esboço a partir das "Instrucciones para John Howell".

John Howell seguia todavia as instruções que estupefato ouvira no estúdio. O olhar das câmeras, que substituíam maquinais toda platéia, lhe entupia os poros, escancarados sob o calor das lâmpadas. Impassíveis, os aparelhos miravam seu corpo, a cada esquina, a cada prédio da Rose Alley, estranhamente cenográfica. Esperou alguns instantes antes de se desvencilhar, como previa o script, da mulher de vermelho, que o acompanhava, e correr, imprevisível, enveredando na primeira curva, tentando se desencaminhar. Recuperou seu outro nome, Rice, para seguir vivendo, como se fosse possível esquecer que, ainda assim, atuava. Como se fosse possível esquecer que fugia, irretornável.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

À meia-luz

Uma noite que cai

Penumbra da pomba e penumbra do corvo; seriam reflexos especulares um do outro a alvorada e o crepúsculo ou apenas se assemelham para que isso tudo pareça lógico e contínuo? As penumbras encantam a realidade; penumbra é névoa, quase cegueira: um lampião posto no canto do recinto, talvez semi-coberto pela mantilha derrubada dos meus ombros; penumbra é entorpecimento e volúpia; penumbra é a região desconhecida (ainda que talvez precisada) dos sonhos e dos pesadelos. Penumbra da pomba é aquela que vela a alvorada, logo desvendada, como a pálpebra cobrindo o olho que presto vai se abrindo; penumbra do corvo é aquela do entardecer, que se estende lentamente sobre a imensidão, uma porta se fechando e com ela a luz se encerra, a pálpebra pesada caindo sobre o olho. As coisas adquirem contornos embaçados, como que se misturam, diluem-se uma na outra e se faz alquebrada a distinção dos nomes e dos seres; com uma beleza impressionista o vermelho tinge as nuvens, brisas e marés, a copa das árvores se vergando sob açoite de um sopro eólico, as construções exaltando o vermelho apagado dos tijolos e das telhas, o farfalhar súbito das folhas se tornando grito. As imagens das penumbras são fuga, turbulência prazerosa nas rotinas; perdição necessária para andar e desandar, erguer e derrubar, perdição anônima e imersa num caldo de desilusão, o caldo opaco e terroso da desilusão. Fuga como alienação, evasão na alteridade: em todas as terras serei estrangeiro, até a mim hei de me alienar, num movimento constante, uma mobilidade intensa; só meu nome e algumas lembranças me dirão que continuo. Os arrulhos do amanhecer e os grasnados do entardecer se misturam e, agora, confundem-se com a chuva, a débil garoa que, levada pelo vento forte, fustiga impetuosa minha testa, os olhos, os lábios, a face penumbrosa.

Escrito em 16 de janeiro de 2002.




Penumbral

Esses são os contos que (me) conto
– adiando a ascensão desenfreada, esperando o canto incerto,
sonhando cidades, luzes, pessoas.
A escuridão da noite é fraca para tantos postes: penumbral
onde sua porta última, finismundo doido abertura avesso?

Habito umbrais como esse: componho vagaroso e trêmulo
reinos de antemão arruinados para morada e pão.

Escrito em 18 de março de 2004.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

O poema que não canto

Esse é o poema que eu venho sangrando toda a minha vida, o grito vermelho que, aos três anos de minha idade, percebi pousado em minha mão toda labaredas, o grito vermelho que eu ouço no meu ventre grávido de vazio, o grito vermelho que se estilhaçou em cacos que me cortaram como uma grade em uma janela corta os raios do sol. Esse é o poema que vem me guiando toda a minha vida como um cão cego guia um cego, um beduíno cego lidera uma caravana no deserto. (Será imarcescível o poema que não canto, como outrora foi a rosa que Borges não cantou? Será eterna a caravana que deixa seu caminho nas mãos de um beduíno cego, ou também cega? A máquina do mundo será arremedo, como uma sombra refletida no espelho? O pequeno caos do fugaz fogo traduzirá de alguma forma o que apressado se propõe real? É ilusão, de todo jeito, que eu tenha o controle sobre o fogo que sangra na minha mão, e que ele me controle soa absurdo. Esse é o poema que não canto, e ele é eco e caco, ele é palimpsesto.) Alaga-se de chamas minha mào, e escrevo um épico nas cinzas que o vento leva, as cinzas de um épico calcinado, cinzas que em parte adentram meus pulmões e de resto se esvão como fugitivas. Alaga-se de chamas minha mão, banha-se no caos o meu desejo múltiplo, e tocá-los é arriscado como tocar a cria da leoa. (Há apenas a mórbida certeza de que já virei as páginas envenenadas desse livro, já viramos todos suas peçonhentas lâminas, para depois levar a mão à boca e corroborar, mesmo inconscientemente, o fim, ainda que inexato, impreciso, ainda que os ecos, cacos e fagulhas prolonguem tudo mais um pouco, mais um pouco. Não cantarei esse poema, pois é como se ele prescindisse de meus esforços.)

Escrito em 14 de janeiro de 2002.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Vaziez I

Saber o vazio, de 28/02/2004 (um arremedo de haikai)

Borboleta metalizada entre as folhas;
corpo pousado adentro as águas:
e todo o resto como um rio sem dentro.



Vaziez, de 30/04/2004

Olho, procuro, mas não encontro: me engana, me enternece, me move essa medida da fuga. Chego na noite cadente, não olho estrelas no céu, acompanho o inconstante compasso dos meus pés no chão. O apartamento está abafado, ficou fechado o dia todo. Abro as janelas como quem abre os braços para acolher o vento. A noite se acomoda (e eu não sei como ela está vestida), a noite serena aqui dentro. A noite sem vento.

Olho os carros se estacionando abaixo, algumas pessoas passam, o bar se agita intermitentemente mais adiante. Procuro. Penso: A saturação é uma forma de fazer da vaziez um vazio. Na distinção estranha dessas palavras, habito clandestino e passageiro.



Da vaziez e do vazio
Na medida do céu, só que por dentro,
assim a vaziez se faz - de pó e vento.
Não é fonte nem é forte, sua pálida cor
se faz mais da fibra seca das folhas
inférteis e varridas na tarde, onde for -
frágeis, aos poucos se esfarelando -
a vaziez é em silêncio um rude canto.

Saturação desmesurada, ubiquamente:
assim o vazio, que cala dos dedos o tato,
que cega com a transparência o silêncio,
se dá e faz de tudo rua sem saída,
noite sem dentro, dia sem perto:
sobre tudo um ar rarefato e presto
- o vazio é o barulho indistinto
que confuso esteriliza a vaziez.

Retornos III

Fui para o aeroporto ao entardecer. O crepúsculo se dava fora como um retrato ou uma projeção do que eu sentia. Uma angústia de despedida me tomava através de cada poro.

No aeroporto, o vôo atrasou e as despedidas finais iam permanecendo parcamente adiadas, até mais alguns minuitos, mais meia hora, mais uma hora, talvez. Essa era uma sensação escruciante. Até que resolvemos passar à área de embarque mesmo sabendo que iríamos ter que esperar um bocado. Pelo menos as despedidas já teriam ocorrido e a angústia que acelerava o peito poderia se atenuar um pouco.

À espera do avião, pensei pra dentro, como quem se conta um segredo, sobre como um homem se transforma nas histórias que conta. Lembrei de Borges.

Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahias, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas traza la imagen de su cara (El hacedor, in Obras Completas, vol. 1, Emecé, Buenos Aires, 1979).

Meu rosto será despaisamento.

Retomo seus fios, pois, agora que os dias retornam a alguma rotina, novamente na Ilha, às voltas com as obrigações mundanas dos estudos, da comida cotidiana, da limpeza do apartamento, agora também que me recuperei quase completamente de uma infecção bacteriana na garganta que me deixou com febre por dias.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Ícaro

Assim se chama a Revista de Bordo da VARIG. Eruditamente irônico, não? Desnecessariamente irônico, para aqueles que fazemos figa quando o avião pousa ou decola, ou quando há alguma turbulência mínima que às outras pessoas não faz diferença.




Võo, ou anti-ícaro

Alguma vez, do alto, se deixar cair.
Como quem busca ali, intangível,
o refrigério para a sede, a secura,
que me atravessa os lábios,
que me fende a pele.
Me desassegura.

Alguma vez, fazer de mim leve, planura.
E sem arremedo ou fúria
me desfazer daquilo que em mim
se faz o tempo todo de amargura
se tece a cada vez, a cada convulsivo olhar,
de uma superficial fundura.
Pra abrir os olhos e sorver na queda a lição mais dura.
Mais fundo que a mais funda tristeza. E então alegria.
(Todo o silêncio do mundo não será suficiente.)

Permanecer, então, ali, cheia de ranhuras
aberta, incerta: de mim uma rasura.
E me abrir em devassa pra tua loucura.

domingo, 4 de junho de 2006

Minicontos II

expropriedades, de 23/04/2004

Ainda assim, continuaria segurando o vidro, sustentando com os ombros toda aquela dor. Na pele seu nome lhe fugia como sangue.

Dialógicas I, ou Disseminálogos I

Ninguém escreve aqui além de mim: eis o que parece anunciar a assinatura que acompanha cada postagem e que paira no canto superior direito da tela, a cada vez. A reiteração do nome pareceria, a um primeiro olhar (que não precisa ser o primeiro em ordem cronológica ou lógica, mas acompanha a cada vez o ato de olhar) ou a uma certa leitura (a primeira ou a última, igualmente), fazer compor um monólogo, ainda que interminável, delegando aos "comentários", numa janela separada, a possibilidade de diálogo.

Mas o que se guarda numa assinatura? Dos direitos autorais e de propriedade intelectual, tal como codificados no texto de leis nacionais e internacionais, à individualidade singular de um vivente, uma assinatura guarda e reproduz, repetitivamente, a singularidade do próprio e a individualidade e indivisibilidade do proprietário do próprio. A assinatura pretende repetir a cada vez uma unicidade, mas no próprio movimento da repetição o que se apaga, se cinde e se rasura é a unicidade do único, da assinatura, do nome próprio. Ao mesmo tempo, pois, a assinatura: guarda da lei sobre a reprodutibilidade e lei da reprodutibilidade essencial, da repetibilidade originária do próprio, do si ou do outro.




nomes, de 23/04/2004

impropriedades

Sempre que assino meu nome penso em como a unidade artificial das minhas experiências se materializa nele, que se classifica gramaticalmente de nome próprio. Próprio de quem? de quantos? Quem assina quando eu assino? quens?

Nesse fluxo interminado, nesses feixes de subjetivação que me fazem divíduo, e não indivíduo, que me dividem portanto no mesmo movimento que parece me dar unidade, nesse ri(s)o, assino aqui meu nome: Marcelo.

rasuras

A rasura deixa ver aquilo mesmo que se teria pretendido apagar. Ambíguo, talvez irônico, esse jogo duplica e fende. A rasura faz despaisamento no nome.




Assinatura, de 30/04/2004

Até que meu nome se transforme em minha rasura?

Retornos II

Febril, de 18/02/2004
Aridez pousada em meus olhos, foge
Todos os dias palavras não bastam, arde
Convulsivo passo atrás de um chão ou porto, navega
Desenfreado Odisseu irretornável, segue
Os animais ariscos na ponta dos meus dedos, sente
O doce abismo te carcomendo os pés, espera
As horas desfazendo nevrálgicas os nós, tece
Labirintos onde habitar enviesada.

Nunca porta alguma para o roseiral.
Nenhuma deusa canta a minha cólera.
Aridez, faz ninho em mim, aridez-persona, aridez-pomo,
Esculpe teu deserto em mim, derrete
De uma vez esses olhos míopes, derrete
De uma vez essas mãos incautas, pulveriza
De uma vez essa máscara rala.

Febril, tecendo cordas com peles impossíveis,
Procuro por debaixo da rasura a palavra que me dê sentido.

Nota de rodapé I

Participei de duas experiências de blog antes desta. A primeira se chamava "despaisamento" e era mantida por postagens esporádicas, sem regularidade, mas sempre que possível semanais; durou de 14/02/2004 a 07/07/2004. A segunda se chamava "asubsistema" e era mantida por um trabalho conjunto; fui convidado a participar por um amigo, mas dadas algumas circunstâncias não pude manter uma freqüência mínima de postagens de minha parte; o resultado foi um blog com pouca participação minha e, em termos gerais, movimentação insuficiente, o que levou esse amigo meu que o idealizou a desativá-lo; durou menos que a anterior.
Esta terceira experiência se beneficiará da possibilidade de republicar o que apareceu no "despaisamento" e de circunstâncias mais adequadas para manter uma freqüência regular de postagens. Com o fim de duas disciplinas nesse primeiro semestre de mestrado, as exigências da pós-graduação se estabilizam num nível administrável e permitem uma certa - mas vejam bem, uma certa - disponibilidade de tempo para outras leituras e escrituras. Surgem novas preocupações, como apresentações de trabalhos em eventos acadêmicos. Permanecem duas disciplinas, com leituras semanais, e há ainda três trabalhos finais a entregar. Mas "ilhadonde" terá uma certa - mas vejam bem... - prioridade.

sábado, 3 de junho de 2006

Minicontos I

Piano, de 21/03/2004

Comprou o piano com dinheiro falso e sem dedos hábeis o suficiente. Mas bastava que ele ficasse ali, na sala, silencioso. O silêncio de um piano é mais bonito que o silêncio das paredes.

datas

Desdatei "O Tecelão", cujos começos remetem a anos atrás, porque foi objeto de várias e seguidas retecelagens, à maneira do personagem que ali, suponho, ganha (e perde) vida. As datas da primeira versão e das seguidas revisões não foram registradas. Como um palimpsesto, permanece inencontrável ali o texto original, resta perdida a data primeira.
Republicarei algumas coisas publicadas no blog que mantive anteriormente. Como mantive o arquivo datado de sua seqüência, cada texto será situado num dia-mês-e-ano. Vejamos se consigo manter uma rotina de publicações aqui, intercalando livremente pedaços do arquivo e invenções.

Teratológicas I

O Tecelão

Era um tecelão. Aprendia o ofício como ganhava anos, sua vida inteira. Tecia suas próprias roupas, o casaco que o agasalhava no frio, o lençol que o cobria no sono, a toalha que estendia sobre a mesa, a cortina que pendia na janela, o tapete desenrolado sobre o chão ou pendurado na parede, o pano que o enxugava após o banho, o lenço que carregava consigo. Tecia várias peças, umas com o mesmo propósito de outras, algumas mais singulares, todas únicas. Seu fazer era curioso, como são os labirintos: parecia nunca terminar suas peças e, de fato, sempre que tecia algo, o deixava de lado por um tempo e depois voltava a tecê-lo, modificando, retirando, acrescentando – só parecia terminar uma peça quando se obrigava ou era obrigado, de alguma forma, a não voltar a tecê-la. De fato, nada nunca estava terminado. E talvez o mais curioso sejam os materiais que usava: um rústico tear, uma agulha (que segurava como um lápis, entre um furo e outro) e, para linha e tecido, sua própria pele e as peles de outros. Ele destecia as peles a partir dos próprios corpos, tornava-as linhas e, com o auxílio do tear, tecia suas várias peças – tudo com seus dedos longos e sinuosos como galhos e sua estranha agulha a perpassar tudo como o vento que perpassa a relva, farfalhando palavras inaudíveis. Era ele quem tingia os tecidos e linhas com esta ou aquela cor, e as tinturas utilizadas eram feitas no mais das vezes com lágrimas e suor, às vezes com sangue, seus e de outros (analogamente à tecelagem), misturados a terra pisada por cavalos e sulcada por rodas, areia de intermináveis desertos, cinzas de fogueiras que queimaram uma cidade ou assaram um carneiro, serragem oriunda do entalhe rústico de artesãos arcaicos ou da faina barulhenta de máquinas apressadas, farinha soprada nos rostos, folhas secas esfareladas entre dedos vagarosos. Lembranças e esquecimentos, as nuanças nebulosas da memória; músicas ouvidas, imaginadas, nunca ouvidas ou sonhadas, e silêncios; alimentos já ou nunca degustados, ou imaginados; causos e historinhas completos ou incompletos, presenças e ausências, reflexos, sombras e ecos entreouvidos; todas essas coisas às vezes lhe serviam de remendo, ou apareciam nas estampas, ou eram sugeridas de alguma forma numa peça – eram, às claras ou escuras, parte do tecer. Incerta ocasião, viram-no tecendo, com suas peças, algo que parecia tomar a forma de uma sinuosa corda. Era um tecer demorado, cheio de pausas, voltas, sobressaltos e reviravoltas, como um rio caudaloso, cheio de baías, vaus, baixios e corredeiras. A corda era tecida aos poucos, nem sempre com cuidado; não lhe faltavam falhas, remendos, vazios, fios soltos, acabamentos apressados, deficiências gritantes. Havia trechos da corda, grossa, em que as linhas não pareciam estar realmente tecidas, devidamente entrelaçadas, fios apontando para todos os lados desgrenhados e elétricos. Havia, também, trechos que se assemelhavam a arame farpado. Outros eram formados por apenas uma linha, a continuidade da corda estando por um fio, como se diz. Noutros trechos, era como se as coisas estivessem fora do lugar, ficando a impressão de que umas estavam trocadas de lugar com as outras. Vazios preenchiam outros pedaços da barroca corda, ainda, com sua densa ausência. A corda era tecida, contudo. Muitos estranharam esse tecer: o tecelão é louco. Outros foram indiferentes. Alguns viram com bons olhos. O tecelão continuou tecendo a curiosa corda, a furiosa corda, que, na verdade, já (se) tecia desde sempre, desde sempre, desde sempre. Um dia, sonhou uma criatura absurda, que contudo lhe pareceu real, cuja pele era uma múltipla e inacabada colcha de retalhos. Lembrava em muito a corda. No sonho – na lembrança que guardou do sonho –, cada indivíduo tecia uma corda com um pouco das de outros indivíduos, formando, todos os indivíduos, uma rede complexa, uma teia mais intrincada que as muitas teias de aranha que se vê por aí. Uma corda, cujas curvas e nós labirínticos e górdios se estendiam indefinidamente no tempo e no espaço, compondo a pele para o inconcebível corpo da criatura, verdadeiramente um monstro. Várias peles se interligavam no que seria uma pele maior, de uma trêmula continuidade, composta de uma diversidade incomensurável. A criatura dormia, inerte, talvez sem vida. Quando acordou do sonho, o tecelão sorriu, sentindo-se leve. Caminhou uma outra vez sobre os chãos que fazia para si, um último caminhar na corda bamba. Envolveu-se na corda, como quem se envolve num cachecol ou como quem é envolvido por uma cobra; e enforcou-se com a corda que (se) tecia desde sempre, desde sempre, desde sempre. Até sempre. Seu corpo pendia inerte, os pés num quase giro vagaroso; no pescoço, e estendendo-se até a viga em que estava amarrada, mais em cima, a corda, cheia de histórias e de fogos, de caminhos e de trevas, de guerras e de músicas, de lavouras e de mares, de espelhos e de medo, um reflexo impreciso e incompleto do mundo, misturando-se magicamente àquele mundo em volta, às paredes, ao chão, ao tear, às janelas, à própria corda, num jogo em espiral, ao rosto do tecelão. Seus olhos, fechados, era como gritassem um rugido fluvial, recônditas nascentes.

A angústia do retorno, ou Retornos I

De Odisseu a angústia cultivo,
Perpasseando em tornos e retornos
Às voltas com meu olhar esquivo,
A rocha torta, opaca, terrosa.

Onde a Ítaca do meu desassossego?
Onde a paragem e a pastagem,
Para dos olhos o cristal inquieto
Serenar, retornado, encontrarei?

Assim quis, um dia ou agora, começar um longo périplo poético. Da Odisséia ao Finismundo, parecia ter um itinerário a seguir, um ponto de partida e um ponto de chegada que, folheandando as páginas dos livros ou a fotocópia velha e encardida, eu poderia encontrar. Mas da Odisséia ao Finismundo são os passos que se desencontram de si, a angústia do retorno. Peripulando outros périplos, da estrada de Minas pedregosa e de uma máquina mundana, de uma gama de navegações incertas, sonhei um trajeto impossível. O outro, o meu, tacanho, indeciso, duvidoso, traço a cada vez nas linhas que me cindem, labirínticas em sua retidão, e na tela que me cata os olhos, fluindo o líquido cristal.

Aqui, pois, onde estiver, ilhadonde, comporei os rastros e as ruínas. É o que ofereço. Reflexões - especulares e especulativas. Esboços de obras volumosas. Ensaios noturnos sobre o que não foi - o que, não tendo sido, constitui o sendo. A senda.

ilhadonde

ilhadondestiver serei(lh)a contra-canto
odisseu longe de ítaca não perderá rumo

escutandando perambulâncias
no quarto ao lado a tela, a teia, a ceia se estende