Assim se chama a Revista de Bordo da VARIG. Eruditamente irônico, não? Desnecessariamente irônico, para aqueles que fazemos figa quando o avião pousa ou decola, ou quando há alguma turbulência mínima que às outras pessoas não faz diferença.
Võo, ou anti-ícaro
Alguma vez, do alto, se deixar cair.
Como quem busca ali, intangível,
o refrigério para a sede, a secura,
que me atravessa os lábios,
que me fende a pele.
Me desassegura.
Alguma vez, fazer de mim leve, planura.
E sem arremedo ou fúria
me desfazer daquilo que em mim
se faz o tempo todo de amargura
se tece a cada vez, a cada convulsivo olhar,
de uma superficial fundura.
Pra abrir os olhos e sorver na queda a lição mais dura.
Mais fundo que a mais funda tristeza. E então alegria.
(Todo o silêncio do mundo não será suficiente.)
Permanecer, então, ali, cheia de ranhuras
aberta, incerta: de mim uma rasura.
E me abrir em devassa pra tua loucura.
3 comentários:
Lindo, simplesmente *lindo* poema.
Fiquei emocionada ao lê-lo.
Emocionada no bom, no ótimo sentido; no sentido do 'anti-ícaro', já que o 'ícaro' ao qual tu te referes também me dá medo. Não só o avião, quanto a revista.
Mesmo em avião com medo de queda.
Voar é sempre sensação, alegria ou não. Nuvens fazem cócegas. Me sinto criança e vejo o mundo pequeno.
É verdade, o peito se abre as ranhuras aparecem e fazemos das chagas o que queremos ou elas nos permite.
Aprendi com o Marcelo, que aprendeu com outra pessoa. "É preciso um grande caos interior para parir uma estrela dançarina".
Que seus partos dançantes o conduzam à meninice de se sentirem cócegas na barriga.
Nossa. Que bonito!
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