segunda-feira, 19 de junho de 2006

Vaziez I

Saber o vazio, de 28/02/2004 (um arremedo de haikai)

Borboleta metalizada entre as folhas;
corpo pousado adentro as águas:
e todo o resto como um rio sem dentro.



Vaziez, de 30/04/2004

Olho, procuro, mas não encontro: me engana, me enternece, me move essa medida da fuga. Chego na noite cadente, não olho estrelas no céu, acompanho o inconstante compasso dos meus pés no chão. O apartamento está abafado, ficou fechado o dia todo. Abro as janelas como quem abre os braços para acolher o vento. A noite se acomoda (e eu não sei como ela está vestida), a noite serena aqui dentro. A noite sem vento.

Olho os carros se estacionando abaixo, algumas pessoas passam, o bar se agita intermitentemente mais adiante. Procuro. Penso: A saturação é uma forma de fazer da vaziez um vazio. Na distinção estranha dessas palavras, habito clandestino e passageiro.



Da vaziez e do vazio
Na medida do céu, só que por dentro,
assim a vaziez se faz - de pó e vento.
Não é fonte nem é forte, sua pálida cor
se faz mais da fibra seca das folhas
inférteis e varridas na tarde, onde for -
frágeis, aos poucos se esfarelando -
a vaziez é em silêncio um rude canto.

Saturação desmesurada, ubiquamente:
assim o vazio, que cala dos dedos o tato,
que cega com a transparência o silêncio,
se dá e faz de tudo rua sem saída,
noite sem dentro, dia sem perto:
sobre tudo um ar rarefato e presto
- o vazio é o barulho indistinto
que confuso esteriliza a vaziez.

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