Fui para o aeroporto ao entardecer. O crepúsculo se dava fora como um retrato ou uma projeção do que eu sentia. Uma angústia de despedida me tomava através de cada poro.
No aeroporto, o vôo atrasou e as despedidas finais iam permanecendo parcamente adiadas, até mais alguns minuitos, mais meia hora, mais uma hora, talvez. Essa era uma sensação escruciante. Até que resolvemos passar à área de embarque mesmo sabendo que iríamos ter que esperar um bocado. Pelo menos as despedidas já teriam ocorrido e a angústia que acelerava o peito poderia se atenuar um pouco.
À espera do avião, pensei pra dentro, como quem se conta um segredo, sobre como um homem se transforma nas histórias que conta. Lembrei de Borges.
Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahias, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas traza la imagen de su cara (El hacedor, in Obras Completas, vol. 1, Emecé, Buenos Aires, 1979).
Meu rosto será despaisamento.
Retomo seus fios, pois, agora que os dias retornam a alguma rotina, novamente na Ilha, às voltas com as obrigações mundanas dos estudos, da comida cotidiana, da limpeza do apartamento, agora também que me recuperei quase completamente de uma infecção bacteriana na garganta que me deixou com febre por dias.
Um comentário:
Marcelo,
ainda bem que você está bem, não aguentava mais ver sua aparência tão abatida, ver você ardendo em febre. E, realmente, as despedidas sempre são tristes, e quanto mais são adiadas, mais angustiante ficam, pois sabemos que elas vão acontecer, que vamos nos separar de quem tanto amamos. Mas isso foi uma escolha nossa. Espero que você não tenha arrependido.
Adoro a forma como você expressa seus sentimentos,
te amo,
beijo grande.
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