Esse é o poema que eu venho sangrando toda a minha vida, o grito vermelho que, aos três anos de minha idade, percebi pousado em minha mão toda labaredas, o grito vermelho que eu ouço no meu ventre grávido de vazio, o grito vermelho que se estilhaçou em cacos que me cortaram como uma grade em uma janela corta os raios do sol. Esse é o poema que vem me guiando toda a minha vida como um cão cego guia um cego, um beduíno cego lidera uma caravana no deserto. (Será imarcescível o poema que não canto, como outrora foi a rosa que Borges não cantou? Será eterna a caravana que deixa seu caminho nas mãos de um beduíno cego, ou também cega? A máquina do mundo será arremedo, como uma sombra refletida no espelho? O pequeno caos do fugaz fogo traduzirá de alguma forma o que apressado se propõe real? É ilusão, de todo jeito, que eu tenha o controle sobre o fogo que sangra na minha mão, e que ele me controle soa absurdo. Esse é o poema que não canto, e ele é eco e caco, ele é palimpsesto.) Alaga-se de chamas minha mào, e escrevo um épico nas cinzas que o vento leva, as cinzas de um épico calcinado, cinzas que em parte adentram meus pulmões e de resto se esvão como fugitivas. Alaga-se de chamas minha mão, banha-se no caos o meu desejo múltiplo, e tocá-los é arriscado como tocar a cria da leoa. (Há apenas a mórbida certeza de que já virei as páginas envenenadas desse livro, já viramos todos suas peçonhentas lâminas, para depois levar a mão à boca e corroborar, mesmo inconscientemente, o fim, ainda que inexato, impreciso, ainda que os ecos, cacos e fagulhas prolonguem tudo mais um pouco, mais um pouco. Não cantarei esse poema, pois é como se ele prescindisse de meus esforços.)
Escrito em 14 de janeiro de 2002.
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