sábado, 3 de junho de 2006

Teratológicas I

O Tecelão

Era um tecelão. Aprendia o ofício como ganhava anos, sua vida inteira. Tecia suas próprias roupas, o casaco que o agasalhava no frio, o lençol que o cobria no sono, a toalha que estendia sobre a mesa, a cortina que pendia na janela, o tapete desenrolado sobre o chão ou pendurado na parede, o pano que o enxugava após o banho, o lenço que carregava consigo. Tecia várias peças, umas com o mesmo propósito de outras, algumas mais singulares, todas únicas. Seu fazer era curioso, como são os labirintos: parecia nunca terminar suas peças e, de fato, sempre que tecia algo, o deixava de lado por um tempo e depois voltava a tecê-lo, modificando, retirando, acrescentando – só parecia terminar uma peça quando se obrigava ou era obrigado, de alguma forma, a não voltar a tecê-la. De fato, nada nunca estava terminado. E talvez o mais curioso sejam os materiais que usava: um rústico tear, uma agulha (que segurava como um lápis, entre um furo e outro) e, para linha e tecido, sua própria pele e as peles de outros. Ele destecia as peles a partir dos próprios corpos, tornava-as linhas e, com o auxílio do tear, tecia suas várias peças – tudo com seus dedos longos e sinuosos como galhos e sua estranha agulha a perpassar tudo como o vento que perpassa a relva, farfalhando palavras inaudíveis. Era ele quem tingia os tecidos e linhas com esta ou aquela cor, e as tinturas utilizadas eram feitas no mais das vezes com lágrimas e suor, às vezes com sangue, seus e de outros (analogamente à tecelagem), misturados a terra pisada por cavalos e sulcada por rodas, areia de intermináveis desertos, cinzas de fogueiras que queimaram uma cidade ou assaram um carneiro, serragem oriunda do entalhe rústico de artesãos arcaicos ou da faina barulhenta de máquinas apressadas, farinha soprada nos rostos, folhas secas esfareladas entre dedos vagarosos. Lembranças e esquecimentos, as nuanças nebulosas da memória; músicas ouvidas, imaginadas, nunca ouvidas ou sonhadas, e silêncios; alimentos já ou nunca degustados, ou imaginados; causos e historinhas completos ou incompletos, presenças e ausências, reflexos, sombras e ecos entreouvidos; todas essas coisas às vezes lhe serviam de remendo, ou apareciam nas estampas, ou eram sugeridas de alguma forma numa peça – eram, às claras ou escuras, parte do tecer. Incerta ocasião, viram-no tecendo, com suas peças, algo que parecia tomar a forma de uma sinuosa corda. Era um tecer demorado, cheio de pausas, voltas, sobressaltos e reviravoltas, como um rio caudaloso, cheio de baías, vaus, baixios e corredeiras. A corda era tecida aos poucos, nem sempre com cuidado; não lhe faltavam falhas, remendos, vazios, fios soltos, acabamentos apressados, deficiências gritantes. Havia trechos da corda, grossa, em que as linhas não pareciam estar realmente tecidas, devidamente entrelaçadas, fios apontando para todos os lados desgrenhados e elétricos. Havia, também, trechos que se assemelhavam a arame farpado. Outros eram formados por apenas uma linha, a continuidade da corda estando por um fio, como se diz. Noutros trechos, era como se as coisas estivessem fora do lugar, ficando a impressão de que umas estavam trocadas de lugar com as outras. Vazios preenchiam outros pedaços da barroca corda, ainda, com sua densa ausência. A corda era tecida, contudo. Muitos estranharam esse tecer: o tecelão é louco. Outros foram indiferentes. Alguns viram com bons olhos. O tecelão continuou tecendo a curiosa corda, a furiosa corda, que, na verdade, já (se) tecia desde sempre, desde sempre, desde sempre. Um dia, sonhou uma criatura absurda, que contudo lhe pareceu real, cuja pele era uma múltipla e inacabada colcha de retalhos. Lembrava em muito a corda. No sonho – na lembrança que guardou do sonho –, cada indivíduo tecia uma corda com um pouco das de outros indivíduos, formando, todos os indivíduos, uma rede complexa, uma teia mais intrincada que as muitas teias de aranha que se vê por aí. Uma corda, cujas curvas e nós labirínticos e górdios se estendiam indefinidamente no tempo e no espaço, compondo a pele para o inconcebível corpo da criatura, verdadeiramente um monstro. Várias peles se interligavam no que seria uma pele maior, de uma trêmula continuidade, composta de uma diversidade incomensurável. A criatura dormia, inerte, talvez sem vida. Quando acordou do sonho, o tecelão sorriu, sentindo-se leve. Caminhou uma outra vez sobre os chãos que fazia para si, um último caminhar na corda bamba. Envolveu-se na corda, como quem se envolve num cachecol ou como quem é envolvido por uma cobra; e enforcou-se com a corda que (se) tecia desde sempre, desde sempre, desde sempre. Até sempre. Seu corpo pendia inerte, os pés num quase giro vagaroso; no pescoço, e estendendo-se até a viga em que estava amarrada, mais em cima, a corda, cheia de histórias e de fogos, de caminhos e de trevas, de guerras e de músicas, de lavouras e de mares, de espelhos e de medo, um reflexo impreciso e incompleto do mundo, misturando-se magicamente àquele mundo em volta, às paredes, ao chão, ao tear, às janelas, à própria corda, num jogo em espiral, ao rosto do tecelão. Seus olhos, fechados, era como gritassem um rugido fluvial, recônditas nascentes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Marcelo, teu texto teceu em mim emoção demasiada. Ainda sob o manto (corda?) do que li...Penso que sempre tecemos, não?
As palavras ecoando
Luiza