quinta-feira, 22 de junho de 2006

À meia-luz

Uma noite que cai

Penumbra da pomba e penumbra do corvo; seriam reflexos especulares um do outro a alvorada e o crepúsculo ou apenas se assemelham para que isso tudo pareça lógico e contínuo? As penumbras encantam a realidade; penumbra é névoa, quase cegueira: um lampião posto no canto do recinto, talvez semi-coberto pela mantilha derrubada dos meus ombros; penumbra é entorpecimento e volúpia; penumbra é a região desconhecida (ainda que talvez precisada) dos sonhos e dos pesadelos. Penumbra da pomba é aquela que vela a alvorada, logo desvendada, como a pálpebra cobrindo o olho que presto vai se abrindo; penumbra do corvo é aquela do entardecer, que se estende lentamente sobre a imensidão, uma porta se fechando e com ela a luz se encerra, a pálpebra pesada caindo sobre o olho. As coisas adquirem contornos embaçados, como que se misturam, diluem-se uma na outra e se faz alquebrada a distinção dos nomes e dos seres; com uma beleza impressionista o vermelho tinge as nuvens, brisas e marés, a copa das árvores se vergando sob açoite de um sopro eólico, as construções exaltando o vermelho apagado dos tijolos e das telhas, o farfalhar súbito das folhas se tornando grito. As imagens das penumbras são fuga, turbulência prazerosa nas rotinas; perdição necessária para andar e desandar, erguer e derrubar, perdição anônima e imersa num caldo de desilusão, o caldo opaco e terroso da desilusão. Fuga como alienação, evasão na alteridade: em todas as terras serei estrangeiro, até a mim hei de me alienar, num movimento constante, uma mobilidade intensa; só meu nome e algumas lembranças me dirão que continuo. Os arrulhos do amanhecer e os grasnados do entardecer se misturam e, agora, confundem-se com a chuva, a débil garoa que, levada pelo vento forte, fustiga impetuosa minha testa, os olhos, os lábios, a face penumbrosa.

Escrito em 16 de janeiro de 2002.




Penumbral

Esses são os contos que (me) conto
– adiando a ascensão desenfreada, esperando o canto incerto,
sonhando cidades, luzes, pessoas.
A escuridão da noite é fraca para tantos postes: penumbral
onde sua porta última, finismundo doido abertura avesso?

Habito umbrais como esse: componho vagaroso e trêmulo
reinos de antemão arruinados para morada e pão.

Escrito em 18 de março de 2004.

2 comentários:

Clarisse disse...

marcelo, tu devia ser escritor... aliás, nem sei, porque tenho certeza de que vc vai ser (ou já é!) um antropólogo fantástico. Você é o tipo de pessoa que, tudo o que faz, faz bem!

Amo vir aqui ler os teus textos. Simplesmente amo!

Anônimo disse...

Caro amigo,
Não é porque é amigo, é por ser tão. Invado sua privacidade.
Torno ainda mais público você
E suas penumbras e cantos e tecidos
Em meu blog, agora mais visitado, tem um link
Um abraço